Do óleo ao bit: como a Noruega está se reinventando no cenário das startups tecnológicas

Passei os últimos 10 anos acompanhando mais profundamente o cenário tecnológico nos países nórdicos/escandinavos/bálticos . Além dos estudos econômicos, sociais e econômicos das quais tenho me dedicado nesse período, o cenário tecnológico sempre veio como parte da evolução e desenvolvimento desses países. As evoluções tecnológicas levam ao aumento do que chamamos de complexidade econômica.

Em muitos momentos dessas pesquisas, passava a acompanhar o que se chegava a respeito dos novos desafios que a Noruega começaria a enfrentar. Grande parte do crescimento econômico e investimentos noruegueses nas últimas décadas foram dedicados à indústria de óleo e gás, e que geraram os excedentes levando aos ganhos de royalties e impostos advindos da extração, refino e venda do ouro negro e seus derivados.

Não tem muito tempo, o fundo público de investimento da Noruega atingiu a incrível marca de 1 trilhão de dólares. Isso mesmo. Um país com uma população de 5.3 milhões de habitantes conseguiu a incrível façanha de ter investido mais de 190 mil dólares por habitante para garantias de pagamentos basicamente do Estado de Bem-Estar (saúde, seguro-desemprego, aposentadorias, etc).

Mas a própria composição do fundo, em grande parte apoiada em participações acionárias das próprias empresas de petróleo, passou a realizar alterações nessa composição vendendo gradativamente exatamente as ações dessas mesmas petroleiras.

Por outro lado, a procura por outros nichos para investimentos, fez a Noruega diversificar e reservar parte desses investimentos em empresas de tecnologia.  E parece ser essa a aposta atual do país para ter como base o seu crescimento.

A Noruega vinha ficando um pouco atrás no cenário de startups da escandinávia por alguns anos. Precisa de provas? Rápido! Cite uma startup norueguesa que não seja a mais óbvia… Mas, apesar de não estar sob a luz dos holofotes, ela não está exatamente desaparecendo à sombra dos sucessos relativos de seus outros irmãos escandinavos também.

Vizinhos como Suécia (Spotify, Ericsson), Finlândia (Nokia, Supercell, Rovio, Linux) e a própria Estônia (Skype), tem sido amplamente noticiadas como os países que mais tem se destacado nesse cenário de tecnologia. Mas a Noruega vem correndo por fora…

Ao ver o que aconteceu na Startup Extreme a expectativa baixa que vinha tendo dos últimos anos era infundada. Em apenas alguns anos, passou de um assunto bastante sombrio para um ecossistema de inicialização real – ainda que nos primeiros passos . Parece mesmo que a maior revolução tecnológica dos últimos tempos está se concretizando por lá.

A resposta norueguesa às quedas do preço do barril de petróleo veio com o aumento em mais de 300% dos investimentos diretos nas startups tecnológicas já em 2016 em referência ao ano anterior, e não apenas nisso. Os esforços também se concentraram através de treinamentos e aconselhamentos, com o que parece ser um dos mais favoráveis ambientes para startupsatualmente.

Novo ecossistema para startups

Todos nós sabemos que um alto nível de apoio e incentivo forte é importante por vários motivos: em muitos ecossistemas de startups bem-sucedidos há um forte arranque para ajudar novas startups. Isso pode tomar a forma de “dinheiro inteligente” (ou seja, investidores que não apenas investem dinheiro na partida para capital próprio, mas também oferecem conselhos, contatos ou outras formas de patrocinar seus investimentos), conselhos processuais ou know-how operacional . Por exemplo: Se você está em um ecossistema de startupsmuito ativo, é possível receber muitos conselhos sobre como configurar opções de compartilhamento de funcionários, como lidar com desafios operacionais ou como lidar com a proteção ou o patenteamento de marcas.

A aprendizagem entre pares é um primeiro passo poderoso para formar uma base para o que esperar antes de ser varrido por advogados e contadores – em um novo ecossistema, o aprendizado entre colegas não é tão prontamente disponível, e ver o governo noruegues trabalhando com a cena inicial para ajudar a preencher essa lacuna é realmente incentivador.

Investimentos do Estado

Aliás, sempre bom lembrar que parte das características dos países nórdicos é a  forte presença do Estado nas questões de saúde, educação e infraestrutura.  Grande parte da população economicamente ativa é de pessoas empregadas no serviço público (professores, médicos, policiais, dentre outros). A Noruega tem hoje aproximadamente 35% dos trabalhadores no serviço público, muito acima da média dos outros países da OCDE (veja o ranking aqui), mas muito próximo dos outros países escandinavos (Dinamarca 35%, Suécia 28%, Estônia 26%).  No Brasil, por exemplo, temos 12% dos trabalhadores como funcionários públicos (e há quem defenda o Estado Mínimo por aqui).

Mas sempre importante ressaltar que esse fato não faz da Noruega um país burocrático ou corrupto.  Pelo contrário: no mundo, a Noruega é o 8o. país mais fácil de se fazer negócios  e considerando somente a Europa perde  apenas para a Dinamarca e Reino Unido (ranking do World Bank).

As escolhas políticas e sociais de educação ( pública e universal) e saúde ( pública e universal) criaram um ambiente diferenciado para o desenvolvimento de mentes criativas, inovações, além de baixíssimos níveis de criminalidade e corrupção.  Cabe lembrar que  o ranking divulgado em 2017dá à Noruega a medalha bronze de país menos corrupto do mundo. Em 2017, o país mais feliz do Mundo.

Um dos principais atores do cenário de startups da Noruega é o Innovation Norway, liderado pela  CEO Anita Krohn Traaseth. O fundo investe em nome do governo e de seus ministérios, com um valor total de 25,3 bilhões de coroas norueguesas (US $ 3 bilhões) e que em 2015 distribuiu 6,1 bilhões de coroas norueguesas (US $ 729,5 milhões) para empresas norueguesas, das quais 30% eram iniciantes.

Além do governo, a casa real norueguesa se jogou na mistura. O príncipe herdeiro Haakon da Noruega (que, por ser o próximo na linha do trono, significa que ele pode legitimamente ser chamado de Rei do Norte, certo?) abriu o evento com uma frase:  “Em 1600 inventamos relógios e começamos a nos atrasar para tudo ” além do e envolvente discurso sobre a história da inovação e empreendedorismo, tanto na Noruega e além.

Alavancando o luxo de ter uma pequena cena de startups – necessariamente assim, o país inteiro tem apenas uma população de 5 milhões – a infra-estrutura de suporte a startups liderada pelo governo está atingindo uma enorme proporção de startups norueguesas. É claro que aceitar assistência em qualquer forma é opcional,  mas a facilidade com que ela está disponível está acima do que outros governos na Europa podem oferecer.

O tamanho do ecossistema também significa que ele rapidamente está se tornando uma comunidade muito unida. Isso poderia, sem dúvida, ir nos dois sentidos, é claro, mas pelo menos os canais de comunicação estão abertos. Minha impressão foi de que parece que, se a sua startup é capaz de formular a pergunta certa, as chances são bastante fortes de estar conectado com as pessoas certas para ajudá-lo a encontrar uma resposta sólida.

Novo Vale do Silício

A MESH, um hub tecnológico norueguês, ganhou em 2017 o prêmio de melhor espaço para trabalhar (Nordic Startup Awards). A inspiração veio um ano antes, depois de Anders Mjåset (sócio do Audun Ueland) ter viajado para cenas paralelas de startup no Vale do Silício, Nova York, Londres e Berlim. Ele percebeu que algo estava faltando em Oslo e fundou o MESH. Foi concebido para ser um lugar semelhante aos seus pares internacionais, onde os empresários poderiam compartilhar idéias e custos. Foi o primeiro desse tipo na Noruega na época. Os hubs internacionais estavam 5-10 anos à frente da cultura norueguesa, segundo os próprios fundadores.

A ideia foi tão bem sucedida que a MESH explodiu para cerca de 140 membros em seu ritmo de trabalho colaborativo em três andares. Eles estão constantemente expandindo sua base de membros. A ideia é ter cerca de 70% de verdadeiras empresas iniciantes em seu espaço de trabalho e 30% de pensadores criativos, desde designers de produtos de aplicativos e produtos tecnológicos até arquitetos e designers de roupas.

A maioria de seus membros é “Flex Part.” Eles pagam NOK 1.190 (R$ 510 no câmbio de hoje) por mês para compartilhar uma grande mesa central nove dias por mês no moderno espaço de design exposto a tijolos, e que dá acesso a todos  os espaços para os membros, como MESH Café,  Nightclub Seeds e o Lounge para atender os investidores de alto perfil. Os membros também podem se valer dos eventos constantes local – há cerca de três por dia – como as “Conferências de Hackathon”, co-patrocinadas pela Microsoft parceira da MESH.

O evento anual Startup Extreme

O Startup Extreme é tido como um evento muito interessante – e tão norueguês – por si só. Extremamente inclusivo (as pessoas gentilmente mudam do norueguês para o inglês sempre que algum estrangeiro entra em uma conversa; , e o feedback recorrente e ontem todos são muito acessíveis; Incomum em conferências de inicialização.

Cinco destaques dos últimos anos.

Oito anos atrás, descobri que a cena de startup na Noruega tinha um punhado de players e pouquíssima infraestrutura de suporte para acompanhá-la. Hoje é um mundo completamente diferente. Do que percebi mais próximo  foram esses pontos.

Casas do Futuro

Futurehome está fazendo todos os seus bits de casa inteligente falar uns aos outros

Se você tentou criar uma “casa inteligente” recentemente, percebeu que a maioria dos dispositivos é bastante burra ou muito egoístas, porque parecem que foram atingidos pela maldição da Torre de Babel: Conseguir que eles falem um com o outro é muito difícil. Começando com seu mercado doméstico na Noruega, mas lançando internacionalmente mais tarde, a Futurehome é um dos que deve ficar de olho bem abertos no que pode se evoluir a respeito.

Solidão Infantil

No Isolation está enfrentando  os desafios de solidão para crianças com doenças de recuperação lenta.

As crianças que sofrem de doenças prolongadas muitas vezes lutam com problemas de  solidão intensa e, de acordo com o CEO da No Isolation, 80% das crianças com deficiências graves não têm amigos. Esse é o problema que a empresa está enfrentando  de um produto lançado dois anos atrás; uma startup fantástica onde  podemos dizer que  estão transformando o mundo em um lugar melhor.

Drones

Tripés? Pau de selfie? Controle Remoto? Equipe de Filmagem? O drone Straaker te segue e filma por aí.

Controle remoto? Eu não preciso de nenhum controle remoto, pau-de-selfie mais. O drone Staaker segue você por aí para que você não precise uma equipe dedicada de filmagem.

Staaker é um drone que te segue por aí

Use uma braçadeira e seu drone voará em círculos lentos (ou rápidos) à sua volta, enquanto você faz uma tentativa indiferente de evitar se matar nas pistas de esqui. Tecnologia muito impressionante; Se você ainda não ouviu falar de Staaker, não se preocupe; em breve, você não poderá evitá-lo.

Compartilhamento de veículos

Nabobil está tomando o lugar da TuroGetaround (empresas de compartilhamento de veículos como a Zazcar – carros próprios – ou Parpe – carros de terceiros – que operam no Brasil, com alguns números verdadeiramente surpreendentes.

Nabobil que em norueguês significa  “Carro do vizinho” é uma economia de compartilhamento de plataforma de carros – muito parecido com Getaround. A empresa está mostrando uma arrancada realmente impressionante e, embora atualmente atenda apenas ao mercado local, ela tem alguns planos ambiciosos de expansão e um plano bastante impressionante de como chegar lá. Definitivamente, uma empresa para ficar de olho.

Startup de alimentos

Empresa de alimentos de peixe MiniPro venceu concurso de pitching de inicialização dois anos atrás. Na época fiquei surpreso ao encontrar uma empresa de alimentos pescados ganhando uma competição de startup pitching, mas rapidamente,  em uma reflexão posterior, é a história perfeita para ilustrar por que a Noruega não se parece com outros ecossistemas de startups. A MiniPro fabrica comidas para filhotes de peixe!

Várias startups que conheci na Noruega não estão prontas para compartilhar suas histórias completas ainda. Mas assim como todos os empreendimentos tecnológicos, um bom ambiente de trabalho e desenvolvimento pode fazer com que muitas dessas sejam lançadas com grande sucesso nos mercados locais ou globais.

Escrito originalmente para o Think! Move! Make!

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